21 janeiro 2026

Cia: soledad

 Estava relendo cartas antigas. O Tempo, senhor da razão, matura tudo, não é?

As mesmas cartas que outrora me rasgaram, agora me dão alento.

Não sei dizer o porquê ou como, apenas sei que mudei.

Aceitei minhas raízes e meus demônios, engoli luz e escuridão, e saltei ao precipício.


Me lembro de me encantar com o simples e o fugaz, e enaltecer migalhas.

Seriam migalhas, ou eram o banquete que podiam me dar? Não sei dizer.


Ainda me sinto perdida, mas não só.


Solitude e solidão são companheiras e amigas de longa data. Ainda rio de mim mesma, ao pensar o quanto fugi delas, sendo elas minhas sombras. Aprendi a abraçá-las e a ter seu colo como casa.


As vezes tragamos, as vezes, prosas, mas sempre lar.


Sempre me vi tão adulta e hoje veio quão criança sou. Ainda falta tanta estrada, tantas bifurcações e pedras adiante, que mal posso ver o horizonte.

Ainda tenho pressa, ao passo que, quero aproveitar cada pôr do sol e cada gota de chuva no caminho. 


Encontrei a lucidez mergulhando fundo na loucura.


T.Alves




23 dezembro 2025

Umbra Mei

Me vi em reflexos tortos

De olhos que desaguaram falsamente

É loucura ou cegueira?

Eu não te compreendo.

 

Turvos como tempestade e água salobra

Me lavei dos destinos impostos

Me rendi a minha nula totalidade

Reescrevi meu mapa e caminhei

 

Já perdi mais do que gostaria

Ganhei menos do que acreditava

Se é que acreditava merecer algo

Ainda assim, me sentei à sombra

 

Certo dia, ouvi de um desconhecido amigo

Sobre luzes e penumbras

Sobre ser e esquecer

Sobre quem eu era e quem eu imaginava ser

 

Minha penumbra também sou eu

Não carrego máscaras, ou doçuras conquistadoras

Nua, embriaguei de Estige e desci ao tártaro

Reconheci meu fulgor.

Me embalei nas palavras dos mortos

E adormeci, desperta.


T.Alves


 

 

21 novembro 2025

26

Infinita fênix, já enxergas teu próximo renascer?

Pacientemente, escolhes caminhos diante bifurcações?

Aguarda conselhos nas encruzilhadas?

Alça voos em precipícios?

Já galgas degraus antes mesmo de avistar horizontes?

Ou ainda se agarra ao medo do desconhecido?


Tenho percebido diversas aves, como tu.

Curiosas e cativantes, ávidas pelo mundo, como loucos.

Tens caminhado só? Ou já reconheces os que andam ao seu lado?


Ah! Querida e tola passarinha!

São tantas estradas, quão grandes seus panoramas!

O Diabo me contou de seus sonhos e deleites e me diverti com eles.

Nobres pisoteiam plebeus,

Plebeus imploram por migalhas nobres, 

Enquanto eu, assisto à derrocada de ambos.


Como será a tua?


T.Alves




22 outubro 2025

IN MEMORIAM

Ainda é necessário lavar teus pés com minhas lágrimas?

Ainda desejas reverências e imperas com medo?

O terror que senti já se esvaiu,

E minhas forças se foram junto dele.

 

Eu vi um céu brilhar e tilintar,

Estrelas caírem e queimarem as esperanças que plantei.

Todo sacrifício era pouco,

Toda modéstia era falsa.

 

Envenenei as águas e o vinho e os bebi,

Comi a massa feita pelo diabo,

E corri descalça por agulhas.

 

O fantasma ainda me acompanha,

Já não me assusta, é só uma sombra.

Mais uma sombra.

Mais um gole, um trago e uma linha reta.

 

Será que os anjos cantam?

Ou ouço as minhas próprias vozes bendizendo o vazio?

Ao deitar, vi fogos coloridos e fui tomada por êxtase.

 

Adeus.


Amanhã,

tu,

me banharás de lágrimas.


Eu,

estarei em casa...


Finalmente.


T.Alves



29 setembro 2025

25

Criatura pérfida e cruel.

Eu vejo sua alma e sua sujeira .

Suas mentiras e sua falsidade.

Duas caras, dissimulada, cobra.

Eu enxergo sua podridão.


Bela encantadora, musa da doçura,

És alento às dores.

És a cura das feridas de minh’alma.

Não vejo meu caminho sem tua luz.


Entregou-me ao carrasco do inferno, soberba és.

Deu-me aos lobos.

Deixou-me apodrecer, do âmago à tez.

A doença que corrói meu ser, é de teu veneno.

Maldita, miserável.


És tu anjo ou deusa, para me elevar aos céus?

Tens meu coração, meu fiel amor.

Todas as canções que ouço, me lembram de ti.

Em todas as cores, encontro em teu olhar.

Toda felicidade é contigo.


Vadia, consorte, víbora, amada!

Bruxa desprezível, Dama encantadora!


…Mulher…


T.Alves




16 setembro 2025

24

Quebrada.

Vozes anunciam e clamam,

Enquanto, entorpecida, rejeito minhas asas.

Invejo a liberdade dos pássaros e seu curto prazo,

Ora ávidos, dançam aos ventos,

Ora descuidados, são devorados por outrem.


Sou bailarina.

Rodopio.

Ora em chamas, ora em lagos congelados.

Vislumbro sombras e lucidez,

Negocio com desconhecidos da plateia,

E desvaneço ao alcançar a perfeição.

A contraponto, holofotes me alcançam nas quedas e erros.

A coreografia contemporânea da vida, torta e mal feita,

Retira burburinhos e gracejos de espectadores sedentos.

Cubro o palco de sangue e lágrimas, então, aplausos.


Bem vindos ao espetáculo!


Bis! Bis! Bis!


Dê mais corda, gire, e toque novamente,

A caixinha está desgastando, mas este é seu brinquedo favorito!

Reabram as cortinas, estendam a lona!

Encharque o palco!

Todos aclamam sua queda.


T. Alves



08 agosto 2025

Pater, ubi es?

 Vistes meu nascer,


Estavas lá nos primeiros passos e tombos,

Estavas lá nas primeiras risadas e lágrimas.

Aonde fostes?


Me renegas


O que te fiz? Por que me fez?


Sua sombra paira sobre minhas lembranças

E mesmo tão tenro, já aprendi a dor da perda.

Preferia eu, ter perdido um joguete,

Ao contrário, perdi parte do que eu nem havia aprendido ainda.


Sabia que ainda espero que adentres pelas portas?

Que me chame e me confirme seu amor?

Era mentira tudo que me dissestes?

É culpa minha tua debilidade?

Se é, perdoa-me, ainda não sei o que faço.

Ainda estou jovem para caminhar só.

Ainda tenho medo do escuro.

Ainda não entendo a vida,

Ainda sonho.


Perdoa-me por ainda sentir que falta algo.

Quiçá, já em madura idade, não questione mais.




T. Alves



25 junho 2025

Sakura

 

Lembras de ti?

Aos findos dias do inverno, enxia-se de botões em cores carmins.

Os transeuntes vislumbravam e ansiavam pelo espetáculo que viria.

O frio cortante, não lhe abalava e seguias firme, frondosa, esbelta.

 

O estilhaçar dos brincos gélidos ao fim da estação,

Era o soar da beleza vindoura, presenteando deusa menina.

Desabrochavas, uma a uma, cada botão era em si, único.

Em buquê tornava-se, espetacular e delicada.

 

Invejosos infortúnios derrubaram-te.

Ao chão, suas pétalas vibrantes secaram e esqueceu-se de como eras.

Como pode a vida, de tal maneira, destruir tua formosura?

Esquecestes de presentear a ti mesma.

Ora! Maior deleite é aquele onde nos embebedamos de nós mesmos.

Em carne viva despia-se de máscaras e mentiras

Sob o sol, vibrava e enflorava, trazendo para fora sua natureza!

 

Divina deusa da roda da vida,

Abençoa, pois esta criança, que desvanece e despreza teu cerne.

A relembre da pureza de suas cores e da delicadeza com que encantava toda gente.

Que ouças, meu pedido e dos demais que por este ser intercedem.

 

Sakura,

Que encontres a cerejeira adormecida em ti,

E como ela, floresça, renove-se, mostre-se.

Após teu longo inverno, que ponhas afora sua graça

E encante a ti mesma uma vez mais.

T. Alves




09 junho 2025

Aihpos

 Talvez...?


Não!


Me enganei,

em verdade,

me vi como Ícaro, e despenquei dos céus.


Ainda me pergunto por que me importo?

É só mais uma perda.


Enxergo mil coisas e ainda assim não sei descrevê-las.

Aonde devo ir?


Perdão, nobre senhora,

talvez tenha sido eu,

demasiado vão.

Acreditei na doçura do saber que de fato, é,

tão doce quanto é fel.


Seria eu, adúltera,

merecedora das pedras ou és tu,

implacável algoz?


Nada se conecta, não é?


O mundo gira, os dias passam,

e ainda me embriago com palavras abstratas e dançantes.


Perdão!


Me silenciarei,

antes que insulte (vossa) Sophia.


T. Alves




17 maio 2025

Ókèèrè

 Ainda verto, veneno e lágrimas

ambos meus, ambos me enlouquecem.

Enquanto as risadas me embalam, louca,

agonizo esperanças perante a noite escura.

Os pedidos às estrelas são esperanças mortas num coração tolo,

ainda assim, conto cada uma delas

quem sabe, elas me ouvem

ou a Lua se apiede e venha dançar.

Os ventos cantam,

a fogueira trepida e narra histórias,

a noite caminha e clareia.

Ao amanhecer, esqueço das lamúrias e finjo alegrias.

Meus ossos doem, meu sangue ferve,

a luz me lembra do que se oculta.

Será que o sol curaria minhas chagas?

As brasas, ao se apagarem, me retornam a mim,

sempre vivo e sempre no fim.

O senhor do sopro, sempre me lembra de caminhar,

às vezes, não creio ser possível,

e na maioria, acompanho fagulhas e rego sementes.

A vida, que não me pertence, é bela e irregular.

Então, bebo mais um gole,

observo nuvens e me banho em chuvas.

Sabe, ainda rezo.

Me lembrei das palavras de uma flor, hoje adormecida,

que a vida escorre pelas mãos como areia.

Não pode ser presa, não pode ser igual,

cada grão, remonta o todo.

Ainda penso, ainda sinto, ainda espero.

Enquanto o orvalho serenado me acalenta.

T. Alves