05 junho 2026

Judgement XX

E não seriam os grilhões lembranças duras?

Passados vivos e presente decadente.

Então...

Estoura-se o champanhe:

 - Um brinde!

Palmas, risos, festa.

Cofres cheios, um banquete fervente,

E a miséria se farta com requinte.

Á mesa posta, no menu: podridão a la carte.

De entrada, esdrúxulos palpites econômicos salpicados de ignorância.

Porcos soberbos envaidecem de seu reflexo visto na prataria polida.

Ao fim da noite, deixam migalhas e restos para os pobres crentes da bondade:

 - Oh! Como temos sorte! Como são benevolentes nossos senhores!

O maná das latrinas enchem olhos tolos.

Futuros mortos sem concepção.


T.Alves




29 abril 2026

Quies inquieta


Transcorria a vida diante dos olhos.
Deitado à beira, certificou-se de que nada abalaria sua quietude.
Por horas, assistia ao céu anil mudar seus tons;
O vento brincava com as vidas verdejantes ao seu redor,
Trazendo aromas fugazes e indiferentes ao seu torpor atual.
Eram grandiosas telas, pinturas feitas pelo divino a cada piscadela. 
Em imenso, límpido e fresco espelho, cantavam sapos e grilos,
O fluxo seguia abaixo da superfície, mas também acima.
Ainda havia muito ali, vibrando, mesmo que se fizesse silêncio absoluto;
O astro, rei do céu em plenitude, tornava a vida calorosa;
Não se recordava de abraço tão afável quanto este.

Quieto amargor súbito despertou-lhe,

Um âmago inquieto e vulcânico.


T.Alves


 

12 fevereiro 2026

Lucky Strike

 

Me desfaço em fumaça

Entre um trago e outro, eu vou.

 

Não sou donzela encantada, querido,

Prefiro ser a vilã que me pintam

Mesmo mártir, ainda serei a bruxa da floresta

A que envenena poços e seca plantações.

 

Vamos jogar?

Você me conta uma mentira doce, e eu como seu coração

Querido, abra os olhos, e veja os aplausos

O tolo sempre tem plateia.

 

A cada gole, absorta e inebriada,

Teias me envolvem e aranhas me traçam,

Enquanto se alimentam, desvaneço-me.

Minhas chagas me lembram quem sou.

Quem fui, não importa mais.

 

A fumaça, a cólera, a fome,

O movimento do diafragma me nutre as veias,

A lâmina as desfaz,

Os tragos, recondicionam.

 

Amanhã é outro dia, outra vida.

Enquanto nuvens derramarem bênçãos,

Estarei aqui.

T.Alves




28 janeiro 2026

In Nomine Patris

 "Adorei as almas, as almas adorei (...)" 


Trocam de ídolos como de roupa

Hoje uma cor clara, amanhã sangue e negro.

Aonde estaríamos sem as correntes?

Aonde estaríamos se elas nunca atassem pés e pulsos?

O sorriso dourado e os olhos feitos de esmeraldas

(Mil contos de réis)

Pérolas vertem de seu ventre, abusado.

Mãos, pés, corpo cansado.


Esqueci meu nome e identidade

Que identidade? Corpos sem alma são ferramentas

Quem sou?

Um arremedo de coisa alguma, 

O que sobrou de algo... Ou alguém. 

Não sei dizer, me apagam, sufocam..


- Calada!


- Sim, sinhô. 


Cabisbaixo, cicatrizes, tronco.


A escuridão sempre provocou medo nos homens

A pele escura acordou o diabo do coração branco.


Em nome de deus, ainda ajoelhamos e rezamos, 

Em nome do deus, vestimos paletó.

Em nome do deus, conhecemos os sete palmos.


Cedo demais.


Se converta, ou perecerás!

T.Alves




21 janeiro 2026

Cia: soledad

 Estava relendo cartas antigas. O Tempo, senhor da razão, matura tudo, não é?

As mesmas cartas que outrora me rasgaram, agora me dão alento.

Não sei dizer o porquê ou como, apenas sei que mudei.

Aceitei minhas raízes e meus demônios, engoli luz e escuridão, e saltei ao precipício.


Me lembro de me encantar com o simples e o fugaz, e enaltecer migalhas.

Seriam migalhas, ou eram o banquete que podiam me dar? Não sei dizer.


Ainda me sinto perdida, mas não só.


Solitude e solidão são companheiras e amigas de longa data. Ainda rio de mim mesma, ao pensar o quanto fugi delas, sendo elas minhas sombras. Aprendi a abraçá-las e a ter seu colo como casa.


As vezes tragamos, as vezes, prosas, mas sempre lar.


Sempre me vi tão adulta e hoje veio quão criança sou. Ainda falta tanta estrada, tantas bifurcações e pedras adiante, que mal posso ver o horizonte.

Ainda tenho pressa, ao passo que, quero aproveitar cada pôr do sol e cada gota de chuva no caminho. 


Encontrei a lucidez mergulhando fundo na loucura.


T.Alves