24 maio 2023

10


Eu me odeio

Por cada lágrima que sorvi em mim,

em ti.

Por cada palavra afiada como lâmina,

Por cada grito abafado.


Nas tempestades e enxurradas que desaguam

Me afogo, me alimento, atuo.

Perdoe-me, eu não sei o que faço.


T. Alves

04 abril 2023

Zinco


 Pois veja, Maestro, até onde viemos!

O quanto andamos, não é?

Ora unidos, ora sós.

Muitas vezes perdidos - em nós.


Nós dados, (por vezes, nós cegos) 

Prendendo-nos, um ao outro,

Até cortamos os laços, e darmo-nos as mãos.


Com a benção dos reis fomos coroados.

O frio e o calor nos temperou à forja.

Vimos noites escuras e tempestuosas,

Passamos dias abafados e mudos. 

Com a escuridão das vistas e a surdez nas palavras,

Contemplamos o sopro fresco oloroso,

Banhamos-nos às lágrimas da rainha,

Fitamos o bailar das folhas ao vento,

Desejamos a luxuria do tempo.


Ah, Maestro! 

Se pequei ao amar-te que se dane a pena. 

Sou a musa de várias faces, mas apenas um coração. 

És teu para que guardes, 

És teu para que comas.

Toques para mim, bailarei para ti.


T. Alves.



22 janeiro 2023

À Violeta


Não chores pequena dama, 

Sim, sua doce violeta foi florescer em outro jardim,

Mas enquanto esteve aqui, foi a alegria dos días.

Então, regue seu túmulo com a tempestade de seus olhos;

Ao final, acenda o fogo e celebre a passagem.

A saudade será sua lembrança e companhia

Novas vidas virão... 

E irão....

Haverão Invernos e Verões, Primaveras e Outonos...

Deixe-a ir e guarde o amor que floresceu em ti.

A violeta estará no jardim com as outras flores que te aguardam.


T. Alves




07 janeiro 2023

Carta ao Bardo

 

Diga-me Bardo,

Que contos permeiam sua mente?

Assisto a ti, tragando.

Absorto em outros mundos.


Diga-me Bardo,

Que ode estás à compor?

Divagas em meio ao Tempo, fitando o vazio.


A tua mudez me cala.

Teu olhar me enfeitiça. 

Tua lira me encanta. 


Queimo, por vezes em euforia, 

Por outras em agonia.

Mas em todas as vezes, 

Aliciada estou à incógnita que és a cada amanhecer...



T. Alves







17 dezembro 2022

9

 

Tenho tentado ser outra.

Despi, troquei-me, ardi.

Fingi beleza na dor,

Calma no desespero,

Lucidez à cegueira.

Surda, caminhei.

Emudeci aos gritos.

Cavei à fundo,

Até meus dedos sangrarem,

Ainda assim, não encontrei minha raiz pútrida.

Mesmo ao banhar-me, a mefítica permaneço.

Reconheço as sombras que me cegam,

Cópias minhas.

Amarrar-me-ei em poste e palha.

Acendas tu a lenha.

Queimar-ei sem voz de súplica.

Confesso a mim meus pecados

Engasgada com palavras de perdão,

Purificada em chamas, 

Renascida, Lume.


T. Alves




15 novembro 2022

8


Eu vi tudo desmoronar

Busquei colar os cacos, mas é em vão

Não existem contos de fadas

Da minha janela só veio tragédias

Tão claro, tão limpo e ainda enxergo embaçado

Minha maior parte é pútrida, bolorenta

Anseio pelo silêncio, mas ouço gritos exasperados

Lanço espinhos e me corto em águas

Meu ego me devora

Caminho baldada, trôpega, vazia,

 amofinada.


T. Alves




24 outubro 2022

À Primavera

 

Ó Rainha! Perdoe-me pela morosidade!

Devido à agilidade do Tempo, atrasei-me em corteja-la.


Devo dizer-lhe:

Teu perfume me cerca, mesmo em longínquos ares.

Tua beleza me fascina em cada novo desabrochar.

E teu toque quente, é dádiva.


Deságua-te, ó Rainha, e purifica-me

Antes que o Tempo passe e teu reinado se finda.


Até lá, deleitar-me-ei dos teus dias,

Vibrar-me-ei a cada nova cor,

As quais pintas os céus e a terra. 

E ao final, esperar-te-ei, 

Até que renasças e me preenchas uma vez mais.


T.Alves




13 setembro 2022

7


Como flores murchas, 

Disse… 


Que essência teriam as lágrimas? 

Murmurou.


O cheiro acre, a palidez


Desconheço qual cor pintaria os dias

Rabisco frases sem sentido, desconexas

Minha cabeça está cheia, o peito vazio.


Afogada, sufocada, cansada.

Sons, palavras, dores, silêncio, vazio.


A menina no balanço, muda.


Sonhos turvos


E ainda assim me embriago de mim.


Silêncio, 


Por favor, 


Calem-se!


Estou enlouquecendo?



Estou enlouquecendo!



Quem sou eu amanhã?



Quem sou?



T. Alves



 

21 julho 2022

6


Durma maestro.

Se deleite em meus braços,

Faça do meu colo berço teu

Enquanto velo teu sono,

Suplico ao tempo que se demore aqui


Guardo cada linha tua em um quadro na memória

E quando te aninhas em mim, assim como menino

Regozijo me em ser musa tua


(Se é que ainda sou)


Todavia,

Durma maestro

Os sonhos são o descanso da alma.


T. Alves




10 junho 2022

5

 Cega, surda e muda.

Pesadelos e abismos

As palavras não chegam, ou chegam tortas.

Enquanto rabisco papéis em puro embargo

Vou perdendo outra parte

Que importância faria sem ver a luz?

Quando ouço-os, inaudível aflição.

Nem qualquer piedade tiveram os deuses

Apenas, recusaram o gozo

Fim à Nimpha.

T. Alves